Jó - Capítulo 29 - Versão Católica
- Jó continuou seu discurso nestes termos:
- Quem me tornará tal como antes, nos dias em que Deus me protegia,
- quando a sua lâmpada luzia sobre a minha cabeça, e a sua luz me guiava nas trevas?
- Tal como eu era nos dias de meu outono, quando Deus velava como um amigo sobre minha tenda,
- quando o Todo-poderoso estava ainda comigo, e meus filhos em volta de mim;
- quando os meus pés se banhavam no creme, e o rochedo em mim derramava ondas de óleo;
- quando eu saía para ir à porta da cidade, e me assentava na praça pública?
- Viam-me os jovens e se escondiam, os velhos levantavam-se e ficavam de pé;
- os chefes interrompiam suas conversas, e punham a mão sobre a boca;
- calava-se a voz dos príncipes, a língua colava-se-lhes no céu da boca.
- Quem me ouvia felicitava-me, quem me via dava testemunho de mim.
- Livrava o pobre que pedia socorro, e o órfão que não tinha apoio.
- A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu dava alegria ao coração da viúva.
- Revestia-me de justiça, e a eqüidade era para mim como uma roupa e um turbante.
- Era os olhos do cego e os pés daquele que manca;
- era um pai para os pobres, examinava a fundo a causa dos desconhecidos.
- Quebrava o queixo do perverso, e arrancava-lhe a presa de entre os dentes.
- Eu dizia: Morrerei em meu ninho, meus dias serão tão numerosos quanto os da fênix.
- Minha raiz atinge as águas, o orvalho ficará durante a noite sobre meus ramos.
- Minha glória será sempre jovem, e meu arco sempre forte em minha mão.
- Escutavam-me, esperavam, recolhiam em silêncio meu conselho;
- quando acabava de falar, não acrescentavam nada, minhas palavras eram recebidas como orvalho.
- Esperavam-me como a chuva e abriam a boca como se fosse para as águas da primavera.
- Sorria para aqueles que perdiam coragem; ante o meu ar benevolente, deixavam de estar abatidos.
- Quando eu ia ter com eles, tinha o primeiro lugar, era importante como um rei no meio de suas tropas, como o consolador dos aflitos.